Comportamento Cultura 

A culpa não é das nossas roupas

Blusa. Short. Calça jeans. Camiseta. Vestido. Minissaia. Top. As peças de roupas parecem serem inofensivas, “mas não são”. E sabem por que não são? Porque um terço (33,3%) da população brasileira acredita que “a mulher que usa roupas provocativas não pode reclamar se for estuprada”, segundo uma pesquisa inédita realizada pelo Datafolha, encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) e divulgada nesta semana.

Não importa se uma mulher está usando saia, burca, biquíni ou se está nua. Nada! Apenas, nada! Nada justifica o estupro ou a violência sexual praticada contra uma mulher. Os dados da pesquisa são assustadores, mas infelizmente revelam a realidade da sociedade machista na qual nos vivemos.

É ainda mais triste e alarmante a informação de que 30% das mulheres que responderam as perguntas concordam com o pensamento de que a culpa é da vítima. O levantamento mostra, ainda, que 65% da população tem medo de sofrer violência sexual e que o percentual cresce em relação às mulheres brasileiras, já que 85% delas têm medo de serem vítimas desse tipo de crime.

Ainda de acordo com o Instituto Datafolha, o Brasil tem uma mulher estuprada a cada 11 minutos. Anualmente, são quase 50 mil casos de crimes sexuais. Se formos considerar os casos de violência sexual que não são registrados pela polícia, as estimativas mostram que esse número seria bem maior e chegaria a 500 mil casos de estupros por ano. Isso porque as ocorrências registradas representam, de acordo com os estudos, apenas 10% dos casos.

Muitas mulheres não tornam público à violência que sofreram por medo dos agressores, por vergonha dos familiares e amigos, pelo receio do julgamento social, por não encontrarem profissionais de saúde capacitados para atendê-las adequadamente tanto no sistema público de saúde ou na rede particular e ainda pela burocracia/precariedade das polícias no atendimento as vítimas dessa violência.

Precisamos que novas políticas públicas de combate à *violência contra a mulher sejam criadas, que as que já existem possam ser melhoradas e que a lei efetivamente funcione contra as pessoas que praticam crimes sexuais.

A cultura do estupro está tão enraizada entre nós que as roupas são apenas uma desculpa esfarrapada para culpabilizar as mulheres. Não é porque uma mulher está vestindo uma roupa justa, um short curto ou uma blusa decotada que o corpo dela se torna público. Muito menos que ela mereça ser atacada. Afinal, você não vê ninguém por aí apertando a bunda de um homem porque ele está de bermuda ou passando as mãos nos seios dele porque ele está sem camisa.

Relativizar os trajes femininos com o “merecimento” das vítimas em serem agredidas é acentuar cada vez mais o machismo em nossa sociedade. É endossar o coro de que “mulheres que se dão ao respeito não são estupradas”. Essa afirmação absurda carregada de “valor moral” ignora completamente a realidade de milhares de mulheres mundo afora que são violentadas no âmbito familiar, acadêmico e profissional.  Sem falar em nossas crianças e adolescentes. Dados do Sistema Único de Saúde (SUS) mostram que 70% dos casos de estupro são cometidos contra eles.

Somos questionadas a respeito de nossas atitudes desde pequenas. Orientadas a viver como “boas meninas” e a nós comportar como tal. Dizem que precisamos ser “belas, recatadas e do lar”, mas isto está errado! Não somos nós que devemos mudar os nossos hábitos e sim os homens que devem passar a nos RESPEITAR. Um respeito que deve começar a ser ensinado a partir da base, pelos pais ou pelos responsáveis pela educação das crianças. A culpa nunca foi, é ou será da vítima!

Metodologia

O levantamento feito pelo Instituto Datafolha foi realizado com 3.625 pessoas, a partir de 16 anos de idade, em 217 cidades de todo o país, entre os dias 1º e 5 de agosto de 2016. A margem de erro é de 2 pontos percentuais para mais ou para menos.

Para mais informações leia a pesquisa completa neste link:

 

 

* A violência contra as mulheres é definida pelas Nações Unidas como qualquer ato de violência de gênero que resulte ou possa resultar em dano físico, sexual, dano psicológico ou sofrimento para as mulheres, incluindo ameaças, coerção, ou privação arbitrária de liberdade, tanto na vida pública como na vida privada.

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